A chegada do lecanemab ao Brasil: um marco no combate ao Alzheimer
O Brasil está prestes a entrar em uma nova fase no tratamento da doença de Alzheimer com a chegada do lecanemab, comercializado como Leqembi, prevista para o final de junho de 2026. Aprovado pela Anvisa em dezembro de 2025, esse anticorpo monoclonal representa o primeiro medicamento capaz de retardar a progressão da doença ao atacar diretamente suas causas biológicas, as placas de beta-amiloide no cérebro. Desenvolvido pelas farmacêuticas Eisai e Biogen, o remédio chega após anos de expectativa, oferecendo esperança para pacientes em estágios iniciais da condição.
Essa novidade surge em um momento crítico, quando o envelhecimento da população brasileira impulsiona o número de casos. De acordo com dados do Ministério da Saúde, cerca de 8,5% das pessoas acima de 60 anos convivem com demência, o que equivale a aproximadamente 1,8 milhão de indivíduos, sendo o Alzheimer responsável por 60% a 70% desses casos. Projeções indicam que esse número pode triplicar até 2050, alcançando 5,7 milhões de pessoas, sobrecarregando famílias e o sistema de saúde.
O que é a doença de Alzheimer e por que ela assusta tanto os brasileiros
A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva que destrói gradualmente as células cerebrais, levando à perda de memória, confusão mental e dependência total. No Brasil, o SUS registrou mais de 56 milhões de atendimentos ambulatoriais relacionados à demência em 2025, além de cerca de 30 mil óbitos associados. O impacto econômico é devastador: em 2019, os custos totais chegaram a R$ 87 bilhões, com 78% representados por cuidados informais prestados por familiares, que muitas vezes abandonam empregos para cuidar de entes queridos.
Famílias enfrentam não só o desgaste emocional, mas financeiro: adaptações residenciais, medicamentos sintomáticos como donepezila e memantina, e cuidadores profissionais podem custar milhares de reais mensais. Com o novo remédio, há a possibilidade de adiar esses estágios avançados, preservando qualidade de vida por mais tempo.
Como o lecanemab funciona: atacando a raiz do problema
O lecanemab é um anticorpo monoclonal humanizado que se liga seletivamente às protofibrilas solúveis de beta-amiloide, formas tóxicas da proteína que se acumulam no cérebro anos antes dos sintomas. Seu duplo mecanismo remove as placas já formadas e impede novas agregações, ativando o sistema imunológico para neutralizá-las. Estudos clínicos de fase 3, como o publicado no New England Journal of Medicine com 1.795 pacientes, mostraram redução de 27% no declínio cognitivo-funcional após 18 meses, medido pela escala CDR-SB.
Diferente de tratamentos anteriores, que apenas aliviavam sintomas, o lecanemab modifica a doença em fases precoces, ganhando meses ou anos de independência para o paciente.
Estudos clínicos e evidências científicas por trás da aprovação
A aprovação da Anvisa baseou-se em dados robustos do ensaio Clarity AD, que demonstrou não só clearance de placas (redução de 59 pontos no PET amiloide), mas melhora moderada em testes cognitivos como ADAS-Cog13 e ADCOMS. No entanto, benefícios são modestos: equivalente a atrasar a progressão em 4-7 meses. Em outro estudo, o risco-benefício foi avaliado, com ARIA em 12,6% dos tratados vs 1,7% placebo.
- Redução de 27% no declínio global.
- Melhora em atividades diárias (ADCS-MCI-ADL).
- Segurança monitorada por RMN seriadas.
Quem pode usar: indicações precisas e diagnóstico prévio obrigatório
Indicado para adultos com comprometimento cognitivo leve (CCL) ou demência leve por Alzheimer (CDR 1), confirmada por patologia amiloide via PET-scan ou punção lombar para dosagem de p-tau181/Aβ42. Exclui homozigotos ApoE ε4, devido a risco elevado de ARIA. Teste genético é essencial.
O diagnóstico precoce é crucial: sintomas como esquecimentos leves, desorientação em tarefas familiares. Neurologistas recomendam avaliação multidisciplinar em centros especializados.
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Administração do tratamento: infusões e monitoramento rigoroso
A dose é 10 mg/kg IV a cada 2 semanas, infusão de 1 hora em centros de infusão equipados com RMN para monitoramento. Inicia-se após confirmação diagnóstica, com RMN basal e aos 3-14 semanas para detectar ARIA-E (edema) ou ARIA-H (hemorragia). Pacientes precisam de transporte regular, o que limita acesso em regiões remotas.
No Brasil, clínicas em São Paulo, Rio e capitais terão prioridade inicial, com expansão gradual.
Riscos e contraindicações: o que as famílias precisam saber
Principais efeitos adversos: reações à infusão (10-20%), ARIA-E (12,6%), ARIA-H (17%), cefaleia. Grave em 0,7% (sintomas neurológicos). Contraindicado em anticoagulados ou RMN com >4 micro-hemorragias. ApoE ε4 homozigotos: risco 3x maior de ARIA grave. Para mais detalhes, consulte a página oficial da Anvisa.
- Monitorar sintomas: confusão súbita, fraqueza, visão turva.
- Suspender se ARIA grave.
- Benefício vs risco individualizado por neurologista.
Preço, acesso e cobertura: desafios para o brasileiro médio
O custo mensal varia de R$ 8.108 a R$ 11.075 (70kg, +impostos), total anual >R$ 130 mil. Não incorporado ao SUS devido a logística e custo (estimado R$ 140-269k/ano/paciente). Planos de saúde não obrigados ainda, mas ações judiciais via incorporação terapêutica possível após rollout. Eisai planeja programas de acesso, mas foco privado.
Desigualdade regional: Sul/Sudeste terão mais centros; Norte/Nordeste enfrentam barreiras logísticas.
Comparação com donanemab: dois gigantes anti-amiloide no Brasil
O donanemab (Kisunla, Eli Lilly), aprovado em abril 2025, é infusão mensal, clearance mais rápido de placas (35% menos progressão). Lecanemab quinzenal, ação em protofibrilas. Escolha depende de perfil: donanemab para remoção agressiva, lecanemab equilíbrio risco-benefício. Ambos pioneiros, expandindo opções.
Opiniões de especialistas: otimismo cauteloso
Helder Picarelli (HC-FMUSP): "Promissor, mas custo e riscos demandam seleção rigorosa." Neurologistas da ABRAz enfatizam diagnóstico precoce via biomarcadores. FEBRAZ celebra avanço, mas cobra Plano Nacional de Demências 2026.
Consenso: não cura, mas altera trajetória, reforçando estilo de vida saudável (exercícios, dieta mediterrânea, controle vascular).
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Perspectivas futuras: mais terapias e políticas públicas
Pipeline inclui anti-tau, vacinas e terapias gênicas. Brasil precisa investir em rastreio populacional e centros de infusão. Com lecanemab e donanemab, expectativa de redução custos long-term via adiamento institucionalização. Para mais, veja relatório Ministério Saúde sobre demência aqui.
Dicas práticas para famílias: como se preparar
- Busque neurologista especializado em memória.
- Faça exames precoces: MoCA, RMN, biomarcadores.
- Planeje finanças: associações como ABRAz oferecem suporte.
- Cuidados holísticos: atividade física, socialização, dieta rica em ômega-3.
Essa nova era exige ação coletiva para democratizar acesso.
