Polícia Federal Deflagra Quarta Fase da Operação Unha e Carne com Prisão de Deputado Estadual
Na manhã desta terça-feira, 5 de maio de 2026, a Polícia Federal realizou uma ação impactante no Rio de Janeiro, cumprindo sete mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão em cidades como Rio de Janeiro, Campos dos Goytacazes, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana. O Supremo Tribunal Federal autorizou as medidas, que visam desarticular uma organização criminosa especializada em fraudes na área da educação pública estadual. Entre os alvos principais está o deputado estadual Thiago Rangel, do partido Avante, preso por suspeita de participação em desvios de recursos da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc-RJ).
A operação, batizada de Unha e Carne em sua quarta fase, expõe como contratos de compra de materiais escolares e serviços de reforma em escolas estaduais foram manipulados para beneficiar empresas ligadas ao grupo criminoso. Especialmente na região Noroeste do estado, área de forte influência política do parlamentar, as contratações foram direcionadas de forma fraudulenta, resultando em saques em espécie e lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis.
Quem é Thiago Rangel, o Deputado no Centro da Investigação
Thiago Rangel Lima, de 39 anos, natural de Guarus, em Campos dos Goytacazes, construiu uma trajetória meteórica na política fluminense. Em 2014, ainda trabalhava como motorista com salário mensal de R$ 1 mil. Dois anos depois, migrou para o empreendedorismo no varejo, especialmente no setor de postos de combustíveis. Em 2020, foi eleito vereador na sua cidade natal pelo PMB, declarando um patrimônio de R$ 224 mil, composto por dois veículos, participação em um posto de gasolina avaliado em R$ 60 mil e uma moto aquática.
Sua ascensão continuou em 2022, quando se elegeu deputado estadual pelo Avante com 31,1 mil votos. Na declaração de bens daquele ano, o valor patrimonial saltou para R$ 1,9 milhão, um aumento de cerca de 748% em apenas dois anos. Entre os ativos, destacam-se 18 postos de combustíveis, que já haviam chamado atenção em investigações anteriores. Rangel também ocupou cargos na administração estadual, como na Superintendência Regional do Ipem-RJ e na Diretoria de Fiscalização do Detro-RJ. Sua filha, a vereadora Thamires Rangel, de 18 anos na época da eleição em 2024 – a mais jovem do país –, foi nomeada subsecretária adjunta de Ambiente e Sustentabilidade, mas foi exonerada no mesmo dia da prisão do pai.
Essa evolução patrimonial rápida já havia sido questionada em outubro de 2024, durante a Operação Postos de Midas, quando a PF apreendeu R$ 160 mil em espécie, um veículo blindado de luxo avaliado em R$ 350 mil e celulares em endereços ligados ao deputado. Na ocasião, ele negou irregularidades, afirmando confiança na Justiça para esclarecer os fatos.
Como Funcionava o Esquema de Fraudes nos Contratos da Seeduc
O mecanismo criminoso era sofisticado e explorava vulnerabilidades no sistema de contratações públicas das escolas estaduais. Escolas, especialmente na Diretoria Regional de Educação Noroeste, realizavam compras de materiais didáticos, mobiliário e serviços de manutenção ou reformas por meio de dispensas de licitação. Essas contratações eram direcionadas para empresas controladas pelos investigados, que simulavam concorrência leal.
Após o pagamento dos recursos públicos, sócios ou procuradores das firmas realizavam saques em dinheiro vivo. Esses valores eram então depositados ou transferidos para contas de uma rede de postos de gasolina administrados pelo líder da organização, misturando-se ao fluxo financeiro lícito para lavagem. A PF aponta que o grupo atuava de forma organizada, com divisão de tarefas clara, beneficiando-se da influência política para garantir os contratos.
Os crimes investigados incluem organização criminosa, peculato – desvio de bens públicos em proveito próprio –, fraude à licitação e lavagem de dinheiro. A defesa de Rangel ainda não se manifestou sobre as novas acusações.
Histórico da Operação Unha e Carne e Suas Fases Anteriores
A Operação Unha e Carne teve início em dezembro de 2025, como desdobramento da força-tarefa Missão Redentor II, criada para combater financeiramente facções criminosas no Rio de Janeiro e romper suas ligações com agentes públicos. A primeira fase, em dezembro, investigou vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun – contra o Comando Vermelho –, com mandados contra o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, aliado de Rangel. Análises de seu celular revelaram elementos que levaram à atual fase.
A segunda fase, em 16 de dezembro de 2025, prendeu um desembargador federal e cumpriu buscas por mais vazamentos. A terceira, em 27 de março de 2026, em Teresópolis, mirou obstrução de justiça. Todas as ações estão vinculadas à ADPF 635, no STF, que regula operações policiais em favelas cariocas.
Esta quarta fase marca uma expansão para o desvio financeiro na educação, mostrando como o crime organizado infiltra setores públicos essenciais.
Photo by John Bogna on Unsplash
Conexões Políticas e o Contexto da Alerj
Thiago Rangel é visto como aliado próximo de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), preso em fases anteriores. Bacellar é acusado de vazar dados sigilosos que beneficiaram TH Joias, ex-deputado ligado ao crime organizado. Essa rede de influência política facilitaria o direcionamento de verbas públicas.
O Rio de Janeiro tem histórico de escândalos na Alerj, com prisões de presidentes como Jorge Picciani e Paulo Melo em operações da Lava Jato. A atual crise reforça a percepção de corrupção endêmica na política fluminense, afetando a credibilidade das instituições.
Corrupção Crônica na Educação Pública do Rio de Janeiro
O caso de Rangel não é isolado. Recentemente, denúncias apontam para um escândalo bilionário em obras escolares via sistema descentralizado de verbas, que gasta mais de R$ 1,1 bilhão em dois anos. O Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) suspendeu pagamentos a empresas suspeitas de compartilhar funcionários, contadores e consultores, simulando concorrência.
Empresas pequenas, com pouca estrutura, disputam contratos milionários de reformas estruturais, originalmente destinadas a pequenas manutenções. O deputado Flavio Serafini (PSOL) cobra transparência na Seeduc, destacando que o modelo reduz fiscalização. Para mais detalhes sobre essas denúncias, consulte a reportagem do G1.
Estudos gerais sobre corrupção em educação no Brasil mostram que desvios reduzem investimentos em infraestrutura em até 20-30%, segundo relatórios do TCU.
Impactos nos Alunos, Professores e Infraestrutura Escolar
Os prejuízos são diretos na ponta: no início do ano letivo, cerca de 30 escolas estaduais não abriram por falta de condições, com problemas como falta de energia, infiltrações graves e vazamentos. Professores enfrentam salas precárias, contribuindo para mais de 400 mil afastamentos por saúde mental em todo o país, com RJ sob pressão extra.
- Escolas sem reformas apesar de bilhões gastos.
- Alunos em ambientes insalubres, afetando aprendizado.
- Professores sobrecarregados, com salários defasados.
- Desvio de recursos que poderiam ir para merenda, transporte ou tecnologia.
Um estudo da SciELO sobre corrupção em gastos educacionais indica que cada real desviado equivale a menos qualidade no ensino básico, perpetuando desigualdades sociais no estado.
Reações Políticas e Institucionais
O Avante-RJ informou que Rangel está à disposição da Justiça e que confia nas instituições. O governo estadual, via Seeduc, não comentou diretamente, mas enfatiza auditorias internas. O TCE-RJ continua investigando obras paralelas. O MPF e PF prometem aprofundar as apurações para recuperar valores desviados.
Deputados de oposição, como do PSOL, cobram CPI na Alerj para investigar a fundo a corrupção na educação. Analistas veem a operação como vitória no combate ao crime organizado infiltrado na máquina pública.
Photo by Jeroen Overschie on Unsplash
Perspectivas Futuras e Medidas Anticorrupção
A prisão de Rangel sinaliza endurecimento contra desvios em setores sensíveis como educação. Propostas incluem maior transparência em dispensas de licitação, uso de blockchain para rastreio de verbas e punições mais rigorosas para agentes políticos. No RJ, reformas no sistema descentralizado são urgentes para evitar repetições.
Especialistas defendem integração entre PF, MP e TCE para monitoramento em tempo real. Recuperar os recursos desviados poderia revitalizar centenas de escolas, beneficiando milhões de alunos. Para acompanhar atualizações, veja o site oficial da PF.
O caso reforça a necessidade de vigilância cidadã e fortalecimento institucional para uma educação pública de qualidade no Brasil.
