O que motivou a decisão do TSE?
A condenação da chapa formada por Antonio Denarium e Edilson Damião baseou-se em práticas consideradas abusivas durante a campanha eleitoral de 2022 em Roraima. O Ministério Público Eleitoral (MPE) e a coligação opositora "Roraima Muito Melhor", liderada pela ex-prefeita de Boa Vista Teresa Surita (MDB), denunciaram o uso indevido da máquina pública para obter vantagens eleitorais desproporcionais. Entre as irregularidades apontadas, destacam-se a execução acelerada de obras no programa "Morar Melhor", que beneficiou eleitores com reformas em residências próximas ao período eleitoral, e a distribuição de cestas básicas por meio do programa "Cesta da Família", que alcançou cerca de 50 mil famílias em um estado com eleitorado de 366 mil pessoas.
Além disso, o governo repassou R$ 70 milhões a 12 dos 15 municípios do estado pouco antes das eleições, o que representou um aumento exponencial em comparação a anos anteriores. Os gastos com publicidade institucional também dispararam, e houve promoção pessoal de agentes públicos em eventos. A ministra relatora, Isabel Gallotti, enfatizou que essas ações configuraram abuso de poder político e econômico, previsto na Lei Complementar 64/1990 (Lei da Ficha Limpa), pois desequilibraram a disputa em favor da chapa governista.
Histórico de cassações de Denarium
Antonio Denarium, aliado histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro, acumula um currículo extenso de controvérsias judiciais eleitorais. Esta foi a terceira cassação de seu mandato como governador pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR), e a quarta no total considerando outros processos. Em 2018, ele foi eleito governador pela primeira vez em uma eleição suplementar após cassação do antecessor José de Deus Melo (Republicanos), por abuso de poder. Em 2022, reelegeu-se com 52,6% dos votos válidos, mas o TRE cassou a chapa em janeiro de 2024 por 4 a 3 votos.
Denarium recorreu ao TSE, que demorou quase dois anos para julgar, com quatro suspensões por pedidos de vista. Sua renúncia em março de 2026, para disputar o Senado, não o livrou da inelegibilidade, que agora o impede de concorrer até 2030. Críticos apontam um padrão de uso de recursos públicos em períodos eleitorais, enquanto defensores alegam perseguição política.
Como foi o julgamento no TSE
O julgamento no TSE, iniciado em agosto de 2024, foi marcado por adiamentos. A relatora Isabel Gallotti votou pela cassação imediata e novas eleições. André Mendonça acompanhou em novembro de 2025. Nunes Marques divergiu, poupando Damião por falta de prova de participação direta, mas concordou com a inelegibilidade de Denarium. Em abril de 2026, Estela Aranha devolveu vista alinhada à relatora, citando a "unicidade da chapa" no Código Eleitoral, que impede separar governador e vice. Floriano de Azevedo refutou defesa sobre repasses por calamidades climáticas, destacando discrepâncias nos volumes. Antonio Carlos e Cármen Lúcia reforçaram o desequilíbrio eleitoral. Placar final: 6x1 para cassar Damião; 7x0 para inelegibilizar Denarium. Sessão suspensa para complemento de voto de Mendonça em 30/04/2026.
| Ministro | Cassação Damião | Inelegibilidade Denarium |
|---|---|---|
| Isabel Gallotti (relatora) | Sim | Sim |
| Floriano de Azevedo | Sim | Sim |
| Estela Aranha | Sim | Sim |
| Antonio Carlos | Sim | Sim |
| André Mendonça | Sim | Sim |
| Cármen Lúcia | Sim | Sim |
| Nunes Marques | Não | Sim |
Transição de poder e novas eleições
Com a cassação confirmada, Edilson Damião deixa o cargo imediatamente após proclamação oficial (esperada para 30/04/2026). O presidente da Assembleia Legislativa de Roraima (ALE-RR), Soldado Sampaio (Republicanos), assume interinamente. De acordo com o artigo 224 do Código Eleitoral, novas eleições suplementares serão convocadas pelo TRE-RR em até 40 dias, com votação em 60 dias. O mandato eleito será tampão até 31/12/2026. Isso ocorre porque a cassação veio após mais de dois anos do início do mandato, evitando eleição indireta na ALE-RR. O governo atual afirma que a administração segue normal até a decisão final.Código Eleitoral (TSE)
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Reações políticas e posicionamentos
A defesa de Denarium e Damião negou irregularidades, argumentando que repasses eram para mitigar secas e beneficiavam toda população, sem conotação eleitoral. O governo de Roraima emitiu nota afirmando continuidade das atividades. O senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) defendeu Denarium no passado, chamando de "perseguição". Opositores, como Teresa Surita, celebram a decisão como vitória da democracia. No Republicanos, há preocupação com o impacto na pré-campanha de Denarium ao Senado em 2026. Lula e aliados evitam comentar, mas bolsonaristas criticam o TSE por suposta parcialidade. Até o fechamento desta reportagem, Denarium não se pronunciou.
Perfil de Antonio Denarium e contexto político de Roraima
Antonio Denarium, militar reformado, assumiu o governo em 2019 após eleição suplementar. Conhecido por pautas conservadoras, enfrentou crises como garimpo ilegal em terras Yanomami, com denúncias de omissão. Aliado de Bolsonaro, foi investigado por fake news e atos antidemocráticos. Sua gestão priorizou infraestrutura e segurança, mas foi marcada por denúncias de corrupção e abuso. Roraima, com 636 mil habitantes e economia baseada em mineração e agronegócio, sofre com desigualdades e migração venezuelana. A cassação abre espaço para novos atores, como Surita ou nomes do União Brasil e MDB.
Impactos para o estado e desafios imediatos
A instabilidade política pode paralisar investimentos e políticas públicas em Roraima, estado fronteiriço com alta dependência de repasses federais. Programas sociais como "Morar Melhor" e "Cesta da Família" beneficiaram milhares, mas agora questionados. O interino Soldado Sampaio, também republicano, enfrenta pressão para eleições limpas. Analistas preveem polarização, com bolsonaristas mobilizados contra a decisão. Economicamente, setor de mineração e agro pode sofrer com incertezas.Cobertura completa no G1
Possíveis candidatos nas novas eleições
- Teresa Surita (MDB): Ex-prefeita de Boa Vista, forte opositora, pode retornar.
- Soldado Sampaio (Republicanos): Atual presidente ALE-RR, interino com base na Casa.
- Outros: Nomes do PT, PSOL ou União Brasil, explorando vácuo de Denarium.
A disputa tampão deve mobilizar Roraima, com foco em transparência eleitoral.
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Precedentes e lições para a política brasileira
A decisão reforça o combate ao clientelismo eleitoral, alinhada a julgamentos como o de Chiquinho Brazão. Mostra rigor do TSE sob Cármen Lúcia contra abusos em estados pequenos, onde recursos públicos têm alto impacto. Futuramente, pode inspirar ações semelhantes em outros entes. Para 2026, sinaliza que Ficha Limpa é aplicada independentemente de alianças.Comunicado oficial TSE
Perspectivas futuras para Roraima
Com novas eleições, o estado busca estabilidade. Desafios incluem crise Yanomami, migração e economia. Candidatos precisarão propor soluções concretas para pobreza (40% abaixo da linha) e infraestrutura. A decisão do TSE pode elevar fiscalização em 2026 nacionalmente, promovendo eleições mais equânimes.
