O Que Revela o Enamed 2025 Sobre a Formação Médica no Brasil?
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicado em outubro de 2025 a cerca de 39 mil estudantes concluintes do sexto ano de medicina em 351 cursos, expôs profundas disparidades na qualidade do ensino médico brasileiro. Divulgados em janeiro de 2026 pelo Ministério da Educação (MEC), os resultados mostram que 69% dos cursos tiveram desempenho satisfatório, com pelo menos 60% dos alunos atingindo proficiência mínima. No entanto, 107 instituições (30,7%) receberam conceitos 1 ou 2, insuficientes, afetando milhares de formandos.
Instituições públicas federais lideraram, com média de acertos de 83,1%, enquanto cursos privados, que concentram 77% das vagas no país, dominaram os piores desempenhos. Essa avaliação, parte do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), foca competências práticas e teóricas essenciais para a prática médica, como diagnóstico, ética e atenção básica. O Enamed surge em meio à expansão acelerada de cursos de medicina, que dobrou de 252 para 505 em uma década, impulsionada pela Lei do Mais Médicos de 2013.
Os microdados liberados permitiram análises detalhadas, como a da Folha de S.Paulo, revelando padrões preocupantes que questionam a regulação do ensino superior no Brasil, especialmente em áreas críticas como saúde.
Comparação Direta: Privados vs. Públicos no Enamed
Uma análise exclusiva da Folha dos microdados do Enamed 2025 mostra que alunos de cursos privados tiveram desempenho inferior aos da rede pública em 85 das 90 questões válidas, ou 94% da prova. Não houve diferenças estatisticamente significativas nas outras cinco. Enquanto 81% dos estudantes públicos alcançaram proficiência, apenas 61% dos privados o fizeram.
Dos 107 cursos com notas insuficientes (1 e 2), 87 são privados, incluindo com fins lucrativos, cujas mensalidades chegam a R$ 17 mil. Federais brilharam: 87,6% com alto desempenho (notas 4-5). Estaduais e municipais variaram, mas privados concentraram falhas. Em números absolutos, 24,5 mil alunos privados participaram contra 9,8 mil públicos, inflando o impacto negativo.
- Federais: Média 83,1% acertos, maioria nota 5.
- Privados: Predominam notas 1-2, com 13 mil formandos anuais de cursos ruins.
- Municipais: Algumas baixas, mas menos que privadas.
Essa disparidade persiste mesmo ajustando por variáveis como idade e experiência prévia dos alunos.
O Paradoxo Socioeconômico: Alunos Melhores, Desempenho Pior
Contrariando expectativas, estudantes privados têm perfil socioeconômico superior: 35% com renda familiar acima de seis salários mínimos (vs. 19% públicos), 36% com mães de nível superior (vs. 31%). Pretos e pardos são 27% nos privados (37% públicos, por cotas). Apesar disso, rendem menos na prova, sugerindo que a instituição pesa mais que o background individual.
Mario Scheffer, da USP e coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil, enfatiza: 'A escola é o fator determinante, não o aluno'. Públicos filtram via vestibulares rigorosos (Enem/Sisu), enquanto privados priorizam volume para lucro, com menor seletividade.Avalie professores e cursos para comparar experiências reais em instituições brasileiras.
Essa inversão destaca falhas estruturais no ensino superior privado, onde investimento em infraestrutura e corpo docente é insuficiente apesar das altas mensalidades.
Desempenho por Áreas Temáticas: Onde o Abismo é Maior
O Enamed abrange eixos como clínica médica, cirurgia, saúde coletiva e ética. A maior lacuna foi em insensibilidade androgênica (questão endócrina): 50,4% acertos públicos vs. 24,4% privados. Segunda: luto e conduta na atenção básica (72,6% vs. 55,1%). Privados falharam mais em conhecimentos práticos e éticos, essenciais para o SUS (Sistema Único de Saúde).
Em saúde coletiva e atenção primária, públicas superam consistentemente, refletindo maior integração com serviços públicos. Privados, focados em especialidades urbanas, negligenciam bases do sistema de saúde brasileiro.
Melhores e Piores Cursos: Um Panorama Regional
Entre os tops (nota 5): UFMS (Três Lagoas), UFMG, UFV, UFOP, UFJF, UNIMONTES – majoritariamente federais em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Piores (nota 1): 24 cursos, 18 pós-2014 privados; nota 2: 83, com 45 pós-2014.
| Curso | Nota | Tipo |
|---|---|---|
| UFMS - Três Lagoas | 5 | Federal |
| Unifesp - SP | 5 | Federal |
| UniRV - Rio Verde (privado ruim ex.) | 1 | Privado |
| Vários municipais interior | 1-2 | Municipal/Privado |
Sul e Sudeste dominam bons resultados; Norte/Nordeste mais privados ruins. Veja lista completa G1.
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Expansão Desordenada: A Herança da Lei do Mais Médicos
A Lei 12.871/2013 permitiu novas vagas em áreas carentes, mas 77 cursos privados abriram via judicialização, sem avaliação plena do MEC. Esses concentram piores notas: 54% das notas 2 são pós-2014. Total vagas medicina dobrou, 77% privadas, muitas em cidades <100 mil hab., gerando 6.500 vagas sem estrutura.
STF confirmou exclusividade do MEC, mas dano já feito: sobrecarga no SUS com médicos mal formados. Entidades privadas resistiram ao Enamed na Justiça.
Oportunidades em universidades brasileirasCausas Estruturais do Baixo Desempenho Privado
- Menor % doutores no corpo docente (públicas: >70%; privadas: <50% em muitos).
- Alto ratio aluno/professor (privados: até 20:1).
- Baixa concorrência vestibular (Enem cutoff menor).
- Infraestrutura precária em campi interioranos.
- Foco lucro vs. qualidade, com evasão alta mas retenção para receita.
Estudantes relatam falta de prática supervisionada e estágios no SUS. MEC suspendeu edital novos cursos privados pós-resultados.
Visões de Especialistas e Entidades
Rodrigo Capelato (Semesp): 'Públicas atraem elites via tradição; Enamed mede só uma dimensão.' Contra: Scheffer destaca evidências de qualidade institucional. CFM alerta: 13 mil formandos ruins/ano ameaçam pacientes. Unesp expert: Não punir alunos, mas instituições.
Debate: Revalida para privados? Mais regulação.
Resposta Governamental: Supervisão e Sanções
MEC: Cursos 1-2 sob supervisão, possível corte vagas (até 50%), suspensão abertura novas turmas. 99 sob risco imediato. Inep monitorará próximos Enades. Pós-Folha, MEC reforça: 'Qualidade prioritária'.Nota MEC oficial
Vagas em ensino superiorImplicações para o Sistema de Saúde Brasileiro
Com 505 cursos formando 35 mil médicos/ano, 30% ruins injetam profissionais despreparados no SUS, elevando riscos erros médicos, mortalidade. Regiões carentes ganham quantidade sem qualidade. Demografia Médica prevê superávit médicos até 2035, mas mal distribuídos.
Soluções: Fortalecer residências seletivas, telemedicina rural, parcerias público-privadas com padrões rígidos.
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Perspectivas Futuras e Recomendações Construtivas
Próximo Enamed 2027 testará melhorias. Recomendações: MEC endurecer critérios abertura; privadas investir docentes/prática; alunos escolherem via avaliações de cursos; governo expandir federais. Para carreira: Foque instituições nota 4-5, busque conselhos carreira acadêmica.
Otimismo: Dados guiam reformas, elevando padrão nacional. Acompanhe vagas em empregos universitários e higher-ed jobs.
