A Crise Revelada pelo Enamed 2025
No início de 2026, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), expôs uma realidade preocupante no ensino superior brasileiro. Dos 351 cursos de medicina avaliados, 107 – cerca de 30,5% – obtiveram conceitos insatisfatórios, com notas 1 ou 2 em uma escala de 1 a 5. Isso significa que menos de 60% dos estudantes desses programas demonstraram proficiência mínima nos conhecimentos e competências essenciais para a prática médica.
Entre os 39.258 concluintes – alunos no final do curso, prontos para o mercado –, aproximadamente 67% alcançaram o nível esperado de proficiência, deixando cerca de 13 mil estudantes abaixo do padrão. No público geral, incluindo médicos formados que fizeram o exame para residência, a taxa caiu para 81%, mas o alarme soou especialmente para os formandos. Cursos municipais tiveram o pior desempenho médio, com 49,7% de proficiência, enquanto federais lideraram com 83,1%.
Esse cenário não é isolado. Ele reflete anos de expansão descontrolada do ensino médico nas universidades e faculdades brasileiras, priorizando quantidade sobre qualidade e comprometendo a segurança dos pacientes.
A Explosiva Expansão dos Cursos de Medicina
O Brasil possui hoje cerca de 448 cursos de medicina autorizados, o segundo maior número do mundo, atrás apenas da Índia. Essa proliferação começou acelerada após 2013, com o Programa Mais Médicos, passando de 132 escolas em 2004 para 252 em 2014 e explodindo para os atuais níveis. Entre 2014 e 2024, foram adicionadas 27.921 vagas novas, 91,5% em instituições privadas.
Muitas aberturas ocorreram via liminares judiciais – quatro em cada dez cursos criados desde 2015 –, em cidades sem infraestrutura mínima, como hospitais-escola ou leitos suficientes no Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2024, havia 294 processos em andamento para novas escolas ou vagas, incluindo 95 do Mais Médicos e 177 judiciais. Grupos empresariais como Afya controlam 32 escolas e 7,4% das vagas, transformando a medicina em um negócio lucrativo, com mensalidades acima de R$ 11 mil.
Essa 'fábrica de médicos' elevou a razão médico/habitante para 2,81 por mil em 2024, com projeção de 5,25 até 2035, mas sem distribuição equitativa: capitais concentram 6,97 médicos por mil, enquanto o interior pequeno tem apenas 0,51.
Deficiências Estruturais nas Universidades Médicas
Uma das principais falhas é a ausência de estrutura assistencial. O Conselho Federal de Medicina (CFM) alerta que 78% das cidades com faculdades de medicina não possuem hospitais-escola adequados ou leitos SUS mínimos exigidos. Novas escolas, especialmente privadas recentes (100 abertas nos últimos seis anos, 92 privadas), têm apenas 9,3% dos vínculos docentes totais e razão aluno/docente de 9,7 – o dobro das públicas consolidadas.
Em municípios pequenos, 75% carecem de hospitais aptos para ensino. Isso limita a prática clínica essencial, forçando estágios insuficientes ou simulados inadequados. Cursos municipais, 85% insatisfatórios no Enamed, exemplificam o problema: média de 49,7% proficiência.
Para entender o processo: um curso ideal requer integração teoria-prática desde o início, com rodízios em hospitais universitários. Sem isso, alunos saem sem 'olhar clínico', incapazes de diagnosticar basicamente.
Currículo Desatualizado e Ênfase Excessiva na Teoria
O currículo tradicional, biomédico-descritivo, falha em preparar para desafios reais como atenção primária e SUS. Estudantes dominam teoria, mas erram aferir pressão arterial ou interpretar exames simples – 70% dos pedidos são desnecessários por falta de humanização e raciocínio clínico.
Novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de Medicina, homologadas em setembro de 2025 pelo MEC e Ministério da Saúde (Resolução CNE/CES nº 3/2025), buscam corrigir isso. Elas enfatizam competências integradas: cuidado centrado no paciente, uso ético de IA, análise de dados em saúde, formação humanística e prevenção. Implementação gradual em quatro anos, revogando as DCN de 2014, para alinhar com o século 21.
Passo a passo: 1) Integração curricular longitudinal; 2) Ênfase em estágios supervisionados; 3) Avaliação por competências, não só provas; 4) Formação em equipes multiprofissionais.
Qualidade Docente e Baixa Seleção de Alunos
Docentes em novas escolas têm menos doutores (44,4% privados vs. 65,6% públicos) e maior carga. Razão aluno/docente chega a 18,2 em privados. Vestibulares com baixa concorrência em cursos ruins agravam: alunos menos preparados.
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- Privados: ENEM mais baixo, menos dedicados.
- Novos cursos: competição vestibular 1/3 da média nacional.
- Solução: exigência de conceito mínimo 4 para operação.
Impactos: Dificuldades na Residência e Revalida
Formandos de cursos ruins lutam na residência: baixa aprovação em provas. Revalida, para estrangeiros, tem taxas ~3-28%, mas reflete problemas domésticos – 6 em 10 médicos privados não sabem básico. Residência tem 47.718 vagas para excesso de formandos, com 19,2% ociosas por qualidade docente.
Riscos à população: charlatanismo, erros diagnósticos. Demografia Médica 2025 alerta para imprevisibilidade judicial.
Perspectivas das Entidades Médicas
CFM e AMB criticam: presidente José Hiran Gallo chama de 'grave estrutural', propondo Profimed – exame obrigatório para registro profissional, como OAB. 13.871 formandos de notas 1-2 ameaçam saúde pública. AMB defende sociedades de especialidades na fiscalização.
Respostas Governamentais e Punições
MEC puniu 99 cursos federais: suspensão Fies, vagas novas; reduções 25-50%; supervisão em todos ruins. Ex: UNINOVE (SP), Faculdade Barbacena (MG) nota 1; Estácio várias unidades. Até 2026, possível fechamento. Página oficial Enamed.
Casos Emblemáticos nas Universidades
Piores: Universidade Nove de Julho (UNINOVE, SP), múltiplas unidades nota 1-2; Centro Universitário de Adamantina (SP), Estácio de Sá (RJ). Melhores: UFMS Três Lagoas (MS), federais como USP, UNIFESP. Regiões: Norte/Nordeste mais ruins por expansão recente.
Soluções e Reformas Propostas
- Moratória novas escolas até avaliação infraestrutura.
- Profimed obrigatório pelo CFM.
- Investir SUS-hospitalar para prática.
- DCN 2025 plena: IA, prevenção, equipes.
- Fiscalização docente, vestibular rigoroso.
Universidades devem priorizar qualidade para reter talentos – oportunidades em vagas para professores.
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Visão Futura: Rumo à Excelência
Com 2,98 médicos/1000 em 2025, foco deve ser distribuição e qualidade. Reformas podem elevar Brasil a padrões OCDE (3,7/1000 com excelência). Universidades inovadoras, como USP com currículos integrados, mostram caminho. Para profissionais, sites como AcademicJobs.com oferecem carreiras em ensino superior.
O desafio é coletivo: MEC, CFM, universidades unidas por formação ética e competente.
