A Escalada das Greves Estudantis nas Universidades Paulistas
Desde meados de abril de 2026, as principais universidades públicas do estado de São Paulo – Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) – tornaram-se palco de intensas mobilizações estudantis. O que começou como uma adesão solidária à paralisação dos servidores técnicos e administrativos evoluiu para um movimento amplo centrado na defesa da permanência estudantil, um conjunto de políticas que visam garantir que alunos de baixa renda possam concluir seus cursos sem abandono por motivos financeiros ou logísticos. Com mais de 130 cursos paralisados na USP, 16 na Unicamp e vários na Unesp, a greve unificada expõe fragilidades crônicas no financiamento e na infraestrutura dessas instituições.
Os estudantes denunciam cortes orçamentários promovidos pelo governo de Tarcísio de Freitas, que ameaçam a sustentabilidade das universidades. Em meio a assembleias lotadas e atos multitudinários, o movimento ganhou contornos dramáticos com a ocupação da reitoria da USP e sua desocupação forçada pela Polícia Militar (PM), gerando paralisações em hospitais universitários e confrontos nas ruas de São Paulo. Essa crise reflete não apenas demandas pontuais, mas um debate nacional sobre o papel do ensino superior público em um contexto de restrições fiscais.
O Que é Permanência Estudantil e Por Que Ela Está no Centro das Demandas?
A permanência estudantil refere-se a um pacote de auxílios e serviços projetados para reduzir a evasão no ensino superior, especialmente entre estudantes de cotas e baixa renda. No Brasil, onde a taxa de evasão nas universidades públicas chega a 40-50% em alguns cursos, conforme dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), políticas como bolsas, moradias e alimentação são cruciais. Na USP, o Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) oferece bolsas de cerca de R$ 885 para não residentes e R$ 300 para quem ocupa alojamentos, atendendo 3.322 alunos em 2026, superando a meta inicial de 2.500.
Os grevistas exigem reajuste para o valor do salário mínimo paulista (R$ 1.804), reformas nos Conjuntos Residenciais Universitários do São Paulo (Crusp), como correção de vazamentos, mofo e falta de iluminação, e investimentos nos bandejões – restaurantes universitários criticados por filas longas, qualidade ruim e superlotação. Na Unesp, demandas incluem expansão de serviços noturnos, como atendimento médico e bibliotecas. Esses pedidos ganham urgência diante de estatísticas alarmantes: na USP, cerca de 20% dos alunos de graduação desistem no primeiro ano, muitas vezes por falta de suporte financeiro, segundo relatórios internos.
Cronologia da Mobilização: De Assembleias a Ocupações
A greve eclodiu em 14 de abril na USP, com adesão inicial de 15 faculdades em solidariedade aos servidores, que conquistaram isonomia salarial após sua própria paralisação. Assembleias subsequentes expandiram o movimento: até 27 de abril, 104 cursos uspeanos paralisaram; em 7 de maio, a Unicamp aprovou indicativo de greve geral com mais de mil participantes, aderindo 16 de 69 cursos dias depois. Na Unesp, campi como Assis deflagraram greve após mortes de professores por falta de estrutura, como atendimento médico demorado.
- 14/04: Início da greve na USP.
- 20/04: 15 faculdades aderem.
- 27/04: 104 cursos paralisados.
- 07/05: Ocupação da reitoria USP; Unicamp aprova greve.
- 10/05: PM desocupa reitoria.
- 11/05: Protesto unificado com confrontos.
Essa escalada reflete frustração com o diálogo interrompido pelas reitorias, que formaram sete grupos de trabalho, mas rejeitam pautas como contratação de docentes – atribuição do governo estadual.
A Ocupação da Reitoria e a Intervenção Policial
Em 7 de maio, cerca de 400 estudantes romperam portões e vidros para ocupar a reitoria da USP no Butantã, acampando com tendas e colchões por 60 horas. A ação visava pressionar o reitor Aluísio Segurado a retomar negociações. A PM, solicitada pela reitoria via Secretaria de Segurança Pública, interveio na madrugada de 10 de maio às 4h15, usando escudos, cassetetes, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo – o chamado "corredor polonês". Retirou 150 ocupantes, apreendeu facas, paus e drogas, e deteve quatro por danos (liberados após).
Estudantes relataram feridos e truculência ilegal, sem ordem judicial e fora do horário permitido (21h-5h). A USP repudiou a violência, destacando danos ao patrimônio e abertura ao diálogo. "A USP repudia que a violência substitua o diálogo", afirmou a reitoria em nota.
Paralisação nos Hospitais: HC e HU na Linha de Frente
Imediatamente após a desocupação, internos da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) aderiram à greve, paralisando atividades práticas e atendimentos no Hospital das Clínicas (HC) e Hospital Universitário (HU). Demandas específicas incluem fim do programa Experiência HC – que vende 2.000 vagas anuais por R$ 8.450 a estagiários privados, superlotando e precarizando –, contratação de 500 profissionais e reabertura de leitos (queda de 220 para 130 desde 2013).
O HC negou impacto aos pacientes, pois residentes mantiveram serviços essenciais. Gabriela Zanini, do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, criticou: "A situação no HU é decadente, prejudicando formação e atendimento". Essa ação simboliza solidariedade e destaca mercantilização da saúde pública universitária.Leia mais na Folha
Protestos Unidos e Confrontos no Centro de SP
Em 11 de maio, centenas de alunos de USP, Unicamp e Unesp protestaram na Praça da República, em frente à sede do Cruesp (Conselho de Reitores), cuja reunião foi adiada. Tumulto eclodiu com vereadores bolsonaristas Rubinho Nunes e Adrilles Jorge (União Brasil), que provocaram e agrediram manifestantes; PM usou spray de pimenta. Os estudantes marcharam para a Paulista, reiterando pautas comuns.
Esses atos visam unificar o movimento, pressionando o Cruesp por mediação com o governo.
Cortes Orçamentários: O Papel do Governo Tarcísio
Os grevistas apontam o governador Tarcísio de Freitas como vilão, com propostas de 2024-2025 que alteram a fórmula de repasse às universidades, potencialmente reduzindo verbas em bilhões. Apesar de recuos, o orçamento 2026 prevê R$ 30,9 bi em investimentos estaduais, mas críticos alegam priorização de obras sobre educação. Na USP, obras paradas e defasagem docente agravam problemas.Orçamento SP 2026 oficial
Reitores defendem autonomia financeira, enquanto estudantes cobram mais recursos para bolsas e infraestrutura.
Estatísticas Alarmantes: Evasão e Desafios da Permanência
No Brasil, 50% dos ingressantes em universidades públicas evadem antes da formatura, per Inep. Nas paulistas, cotistas (maioria desde cotas raciais/socioeconômicas) enfrentam barreiras: 20% dropout na USP no 1º ano. PAPFE atende milhares, mas fila de espera persiste; Crusp abriga 2.500, mas com condições precárias. Estudos mostram que bolsas reduzem evasão em 30%, mas valores defasados perdem poder de compra.
| Universidade | Auxílios PAPFE-like (2026) | Taxa Evasão Estimada |
|---|---|---|
| USP | 3.322 | ~20% 1º ano |
| Unicamp | Similar | 15-25% |
| Unesp | Em expansão | 25-40% |
Vozes dos Envolvidos: Perspectivas Múltiplas
Estudantes: "Precisamos de diálogo, não repressão" (DCE-USP). Reitoria USP: "Pluralidade de ideias, não violência". Servidores: Apoiam, citando vitórias recentes. Governo: PM apura excessos. Especialistas em educação superior alertam para risco de judicialização e perda de semestre, mas elogiam mobilização por visibilidade.
Implicações e Perspectivas Futuras
A greve ameaça calendários acadêmicos e SUS via hospitais, mas pode forçar avanços. Soluções: Reunião Cruesp, recomposição orçamentária, ampliação bolsas. Para alunos, dicas: busque auxílios via PRIP-USP ou equivalentes; faculdades privadas oferecem bolsas via Prouni. O movimento inspira debate nacional sobre financiamento público do ensino superior.Cobertura completa no G1
Com negociações em curso, o equilíbrio entre protesto e diálogo definirá o legado dessa mobilização histórica.
