Contexto da Crise na Universidade de São Paulo
A Universidade de São Paulo (USP), maior e mais prestigiada instituição pública de ensino superior do Brasil, vive um momento de tensão com a deflagração de uma greve indefinida pelos funcionários técnico-administrativos (TAEs) iniciada em 14 de abril de 2026. A mobilização, aprovada por unanimidade em assembleia do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) no dia 9 de abril, ganhou adesão massiva de estudantes, que realizaram paralisação no mesmo dia em dezenas de cursos. Esse movimento conjunto reflete preocupações profundas com a isonomia salarial, reajustes há muito adiados e o sucateamento progressivo da infraestrutura universitária, agravando um quadro de subfinanciamento crônico nas universidades estaduais paulistas.
A USP, com cerca de 12.600 TAEs e mais de 90 mil alunos de graduação e pós-graduação distribuídos em sete campi principais (São Paulo, Ribeirão Preto, São Carlos, Pirassununga, Bauru, Lorena e Santos), é um pilar da pesquisa e formação no país. No entanto, anos de congelamentos orçamentários estaduais têm impactado serviços essenciais, desde laboratórios até restaurantes universitários (RUs). O orçamento da USP para 2026 é estimado em R$ 9,41 bilhões, com 5,02% da cota do ICMS estadual, mas críticos apontam que isso não acompanha a inflação nem as demandas crescentes.
O Estopim: Aprovação da GACE e a Quebra da Isonomia Salarial
O catalisador imediato da greve foi a Resolução nº 8969/2026, aprovada pelo Conselho Universitário (Co) em 31 de março, que institui a Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE). Essa gratificação concede até R$ 4.500 mensais por 24 meses a professores em regime de Dedicação Integral à Docência e Pesquisa (RDIDP) que desenvolvam projetos estratégicos, como cursos em inglês ou atividades de extensão. O montante total previsto é de cerca de R$ 476 milhões em dois anos, o que os TAEs veem como elitista e violador da isonomia histórica entre categorias.
"A reitoria trata os funcionários como cidadãos de segunda classe", destacou o Sintusp em boletim oficial. Os trabalhadores exigem a divisão proporcional desse fundo, com incorporação fixa de R$ 1.600 ao salário base, além de 14,5% de reposição salarial pelas perdas acumuladas desde 2012. Outras demandas incluem abono de horas-ponte e recesso de fim de ano equiparados aos docentes, vale-refeição ilimitado (BUSP especial) e fim da escala 6x1 para terceirizados, que compõem grande parte dos serviços.
O reitor Aluísio Segurado, empossado recentemente à frente da gestão Segurado-Bernucci, defendeu a GACE como medida para "valorizar a carreira docente e estimular excelência acadêmica". Ele anunciou contrapartidas para TAEs em estudo, como reajuste no vale-refeição de R$ 1.950 para R$ 2.050 anuais, auxílio-alimentação diário de R$ 65 e aumento de 14,3% no auxílio-saúde a partir de maio. Contudo, essas medidas não acalmaram os ânimos, pois não abordam a incorporação salarial nem o sucateamento.
Mobilização Estudantil: Dezenas de Assembleias e Paralisação em Massa
Estudantes da USP, organizados pelo Diretório Central dos Estudantes Livre (DCE-Livre "Alexandre Vannucchi Leme"), realizaram mais de 70 assembleias entre 8 e 13 de abril, com adesão de pelo menos 105 cursos de graduação nos campi da capital e interior. A paralisação de 14 de abril incluiu piquetes, arrastões e ocupação de prédio na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). Nota assinada por 75 entidades estudantis denuncia uma portaria reitoral que restringe o uso de espaços pelos centros acadêmicos (CAs), permitindo revogações "por conveniência" e limitando comércio interno.
A pauta estudantil foca na permanência: reajuste das bolsas do Programa de Apoio à Formação de Pós-Graduandos e Estudantes de Graduação (PAFPE) de R$ 885 (integral) para R$ 1.000 e R$ 335 (parcial) para R$ 500; melhoria nos RUs, com relatos de larvas em refeições na Faculdade de Direito; e expansão de vagas no Conjunto Residencial Universitário do Butantã (CRUSP), hoje insuficiente para a demanda. Em 2026, R$ 461 milhões foram alocados para permanência (aumento de 8,25%), beneficiando 41,7% de alunos de famílias com renda abaixo de meio salário mínimo paulista (R$ 1.804).
Denúncias de Sucateamento: Infraestrutura em Colapso
O sucateamento é o fio condutor das queixas. Estudantes relatam tetos desabando na FFLCH, buracos em pisos, falta de materiais em laboratórios e circulares lotadas. Nos bandejões, filas intermináveis, calor excessivo e comida estragada com larvas e fungos levaram a suspensões de aulas. Uma denúncia no Co em 31 de março destacou larvas em pratos da Faculdade de Direito, serviço terceirizado sob investigação da reitoria, que emitiu advertências e monitora com nutricionistas.
Esse quadro reflete cortes orçamentários estaduais: apesar do ICMS, obras paralisadas e precarização de terceirizados agravam o problema. Em assembleias, estudantes unificaram pautas com TAEs, vendo na GACE prioridade errada enquanto a infraestrutura degrada.
Impactos Imediatos da Greve e Paralisação
No primeiro dia (14/4), a adesão afetou serviços em todos os campi: bibliotecas fechadas, laboratórios parados e aulas suspensas. Arrastão às 14h partiu da reitoria central, com ocupação na EACH. A USP estima reposição docente lenta desde 2023, mas a greve pode atrasar calendários acadêmicos e exames. Com 12.600 TAEs, a paralisação desafia a gestão nova, que prioriza excelência acadêmica.
- Serviços afetados: Limpeza, segurança, RUs, transporte.
- Aulas e pesquisa: Suspensas em 105+ cursos; labs inoperantes.
- Estudantes: 41,7% de baixa renda impactados pela permanência precária.
Histórico de Lutas na USP e Contexto Nacional
A USP tem tradição grevista: 2014 viu a mais longa (106 dias TAEs+docentes+estudantes); 2023 mobilizou todos os institutos da capital por falta de professores (818 perdidos desde 2014). Em 2026, TAEs federais (FASUBRA) grevam desde 23/02 em 50+ instituições por RSC e acordos não cumpridos. Paulistas (USP, Unesp, Unicamp) unificam pauta salarial via Fórum das Seis.
Cortes federais de R$ 488 milhões em UFs (7% menos que 2025) e estaduais agravam: educação superior pública encolhe apesar de matrículas recorde (10 milhões em 2024).
Perspectivas dos Stakeholders e Soluções Propostas
Sintusp exige negociação imediata; DCE clama por universidade pública, gratuita e de qualidade. Reitoria propõe diálogo, mas TAEs rejeitam sem isonomia. Especialistas sugerem incorporação progressiva, auditoria em terceirizações e Plano de Manutenção via Novo PAC. ANDES-SN apoia, vendo unificação como chave.
| Categoria | Demanda Principal | Status |
|---|---|---|
| TAEs | R$1.600 fixo + 14,5% reajuste | Greve indefinida |
| Estudantes | Bolsas + RUs + CRUSP | Paralisação 14/4 |
| Reitoria | Projetos TAEs em estudo | Negociação aberta |
Implicações para o Ensino Superior Brasileiro
Essa crise espelha desafios nacionais: subfinanciamento (cortes em UFs), desigualdades salariais e infraestrutura decadente. Soluções incluem emendas parlamentares, PPPs para manutenção e avaliação de gratificações inclusivas. Para USP, equilíbrio entre excelência e equidade é vital.
Olhar para o Futuro: Negociações e Reformas Necessárias
Comando de Greve monitora adesão; próxima assembleia definirá pautas ampliadas (contratações, teletrabalho). Perspectiva positiva se diálogo prevalecer, mas persistência pode estender paralisação. Para o Brasil, urge investimento em HE pública: 1% PIB em pesquisa, como defendem reitores. Estudantes e TAEs unem-se por uma USP sustentável.
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