O Ministério da Educação (MEC) encontra-se no centro de uma intensa polêmica envolvendo a formação de professores por meio da Educação a Distância (EAD). Recentemente, uma proposta em discussão no Conselho Nacional de Educação (CNE) sugere reduzir a carga horária mínima de atividades presenciais nos cursos de licenciatura de 50% para 40%, contrariando uma regra estabelecida pela própria pasta em 2024. Essa mudança, apoiada pela área técnica do MEC, reacende debates sobre a qualidade da formação docente no Brasil, especialmente em um contexto de alta evasão e domínio do EAD nas matrículas de professores.
A controvérsia ganhou força em fevereiro de 2026, quando a minuta de resolução preparada pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) foi pautada para votação no CNE. Embora adiada, a proposta expõe tensões entre acesso ampliado via EAD e a necessidade de práticas presenciais para preparar educadores competentes para a educação básica.
Contexto Histórico das Regras para Licenciaturas EAD
A formação de professores no Brasil passou por diversas reformulações nos últimos anos. Em 2024, o CNE aprovou a Resolução nº 4, definindo para cursos de licenciatura EAD uma estrutura de 3.200 horas totais: 50% presenciais (1.600 horas), 20% síncronas mediadas (aulas ao vivo online) e 30% assíncronas EAD. Essa medida foi celebrada pelo então ministro Camilo Santana como um marco para elevar a qualidade docente, especialmente após críticas à expansão descontrolada do EAD durante a pandemia.
Em maio de 2025, o governo federal editou novo marco regulatório para EAD, criando a modalidade semipresencial com apenas 30% presencial mínimo. Isso gerou impasse: aplicar a regra específica de licenciaturas ou o marco geral? A proposta atual busca alinhar as diretrizes, mas à custa de flexibilizar o presencial.
Detalhes da Proposta do MEC ao CNE
A minuta sugere redistribuir a carga horária das licenciaturas EAD para 40% presencial (1.280 horas), 20% síncrona mediada (640 horas) e 40% EAD assíncrona (1.280 horas). Nos núcleos de formação básica e específica (núcleos 1 e 2, 2.480 horas), apenas 25% seriam obrigatoriamente presenciais, permitindo mais flexibilidade para polos em áreas remotas.
O argumento do MEC é atender ao perfil dos alunos: segundo o Censo da Educação Superior 2024, 73,1% residem no interior e 72,7% optam por EAD. Sem ajuste, polos pequenos poderiam fechar, forçando deslocamentos longos. Estágios e atividades de extensão (núcleos 3 e 4) manteriam obrigatoriedade presencial.
Posição Contraditória do Ministro Camilo Santana
Camilo Santana repetiu em discursos, como no lançamento do Censo Escolar em fevereiro de 2026, que os 50% presenciais são 'o mínimo para formar bons professores'. Em resposta à pressão de secretários, reafirmou: 'A minha posição e do MEC é manter nosso decreto de 2024 garantindo 50% presencial mínimo'. No entanto, a Seres, vinculada ao MEC, elaborou a minuta de redução. Santana anunciou que não homologará o texto atual e deve deixar o cargo em breve para agenda eleitoral, deixando o tema para o sucessor Leonardo Barchini.
Pressão dos Secretários Estaduais e Municipais
Entidades como UNDIME (secretários municipais), Consed (estaduais) e Consec enviaram carta ao MEC e CNE classificando a proposta como 'retrocesso'. Defendem os 50% como compromisso pela qualidade da educação básica. 'Qualquer ajuste deve fortalecer a formação docente', afirma a UNDIME. Rossieli Soares (Consed) destacou que EAD isolado compromete habilidades práticas essenciais para professores.
Críticas de Especialistas e Entidades
Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, chama a mudança de 'subterfúgio para mascarar EAD', enfatizando interações humanas insubstituíveis na formação docente. A Profissão Docente e o Movimento Interfórum de Educação alertam para piora na qualidade, citando resultados da Prova Nacional Docente onde EAD tende a performar pior. Setor privado pressiona por flexibilidade, mas especialistas pedem presencialidade integral com mais horas em escolas.
Estatísticas: O Domínio do EAD nas Licenciaturas
De acordo com o Censo da Educação Superior 2023, 67% das matrículas em licenciaturas (1,71 milhão) são EAD, com 81% dos ingressantes optando por essa modalidade. Em pedagogia, EAD supera presencial nos cinco maiores cursos. Predomina no setor privado, que oferece 64% das vagas EAD em licenciaturas. Dados de 2024 mostram 887 mil alunos em pedagogia EAD, mais da metade do total.
- 73% alunos em interior.
- 72,7% preferem EAD por flexibilidade.
- Crescimento dobrou em uma década.

Questões de Qualidade e Alta Evasão no EAD
A evasão em EAD chega a 41,6% em graduações, maior taxa registrada, contra menor em presenciais. Críticos ligam isso à falta de interação e suporte. Estudos apontam que professores EAD têm pior desempenho na Prova Docente. MEC critica expansão predatória de polos terceirizados (46% dos 47 mil polos), questionando qualidade. Para licenciaturas, prática em sala é crucial, e EAD puro não prepara para desafios reais da educação básica.Folha de S.Paulo (26/02/2026)
Impactos nas Universidades e Faculdades Brasileiras
Instituições privadas, que dominam EAD, veem na redução oportunidade para manter polos rentáveis em cidades pequenas. Públicas, como UFs, focam presencial, mas sofrem com déficit docente (250 mil vagas em básica). Flexibilização pode baratear formação, atraindo mais alunos, mas elevar evasão agrava escassez. Custo por aluno EAD é menor, mas qualidade questionada afeta reputação e empregabilidade de egressos.
Exemplo: Universidades como Uninter e Estácio expandiram EAD em licenciaturas, mas enfrentam sanções por qualidade em avaliações MEC.
Desafios dos Polos EAD e Acesso Rural
Proposta justifica redução para preservar polos em interior, evitando deslocamentos. Mas críticos dizem que qualidade não se resolve com proximidade; precisa de estrutura docente qualificada. 73% alunos interior dependem EAD para conciliar trabalho e estudo, mas alta evasão perpetua ciclo de baixa qualificação.

Perspectivas Futuras: Próximos Passos no CNE e MEC
Votação adiada de 26/02/2026; sem data nova. Após CNE, precisa homologação MEC. Com saída de Santana, novo ministro pode manter 50%. Prova Docente resultados podem influenciar. Soluções propostas: mais investimento em estágios presenciais, fiscalização polos, incentivos a presenciais em públicas.
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Implicações para a Educação Básica Brasileira
Qualidade docente impacta diretamente aprendizado básico. Brasil tem déficit 250 mil professores; EAD barata formação, mas se compromete prática, agrava problema. Equilíbrio: expandir acesso sem sacrificar excelência. Universidades devem inovar híbridos com foco prático, enquanto MEC prioriza avaliação contínua.
Visão equilibrada: EAD complementa, mas presencial essencial para professores. Debate impulsiona reformas para formação robusta.
