Um Marco Histórico na Educação Rural do Brasil
O credenciamento da Faculdade Josué de Castro pelo Ministério da Educação (MEC) representa um avanço significativo para a educação superior no campo brasileiro. Localizada no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, Rio Grande do Sul, essa instituição ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se torna a primeira faculdade totalmente vinculada ao movimento a receber autorização oficial para operar como parte do sistema federal de ensino superior. Anunciado no início de 2026, o feito consolida décadas de esforços pela formação profissional adaptada à realidade rural.
Essa conquista não surge do nada. Ela reflete a evolução de projetos educativos do MST, que desde os anos 1980 priorizam a educação como ferramenta de empoderamento e transformação social. Com o credenciamento via Portaria MEC nº 68, de 23 de janeiro de 2026, a faculdade ganha autonomia administrativa e pedagógica, permitindo a oferta direta de cursos de graduação sem depender exclusivamente de parcerias com universidades públicas.
A Trajetória Educacional do MST e o Nascimento do Instituto Josué de Castro
O MST, fundado em 1984, sempre enxergou a educação como pilar fundamental de sua luta pela reforma agrária. Inicialmente, o movimento criou escolas itinerantes para acompanhar acampamentos de sem-terra e, posteriormente, escolas em assentamentos, atendendo milhares de crianças e adultos. Esses espaços incorporaram a 'pedagogia sem-terra', que integra estudo, trabalho produtivo e militância política.
Em 1995, surgiu o Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), batizado em homenagem ao médico e geógrafo pernambucano Josué de Castro (1908-1973), autor de 'Geografia da Fome' e pioneiro nos estudos sobre subnutrição no Nordeste brasileiro. O IEJC começou oferecendo ensino médio e cursos técnicos a jovens de assentamentos, acampamentos e organizações populares urbanas e rurais. Ao longo de três décadas, formou profissionais em áreas como agroecologia, cooperativismo e pedagogia do campo, muitas vezes em regime de alternância – períodos alternados de aulas teóricas e prática laboral.
A transição para a faculdade é natural: parcerias com universidades como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) permitiram cursos superiores via Programa Nacional de Educação do Campo (Pronera), mas o credenciamento atual eleva o IEJC a nível superior autônomo. Hoje, o acervo da biblioteca inclui milhares de títulos sobre educação rural, cooperativismo e lutas sociais, servindo de base para pesquisa e extensão.

O Processo de Credenciamento: Passos e Requisitos do MEC
O credenciamento de instituições de ensino superior no Brasil segue normas rigorosas definidas pelo MEC e pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Para faculdades isoladas como a Josué de Castro, o processo inicia com pedido à Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres/MEC), incluindo projeto pedagógico, plano de infraestrutura, quadro docente e viabilidade financeira.
- Etapa 1: Submissão de documentação e autoavaliação via Sistema e-MEC.
- Etapa 2: Análise pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), com visitas in loco para verificar instalações.
- Etapa 3: Parecer do CNE/CES (Conselho de Educação Superior), homologado para emissão da portaria.
- Etapa 4: Publicação no Diário Oficial da União (DOU), concedendo credenciamento por até 3 anos iniciais, renovável após avaliação.
No caso da FJC, o parecer CNE/CES nº 599/2025 recomendou aprovação, resultando na Portaria 68/2026. A mantenedora, Instituto de Pesquisa e Educação do Campo, demonstrou capacidade técnica acumulada, com ênfase em formação rural.
Localização Estratégica no Coração da Reforma Agrária Gaúcha
Situada na Rodovia RS-040, km 20, bairro Bela Vista, Viamão (RS), a faculdade integra o assentamento Filhos de Sepé, criado em 1997 e nomeado em homenagem ao líder indígena guarani Sepé Tiaraju. Esse território de 1.200 hectares abriga cerca de 200 famílias dedicadas à agricultura familiar, agrofloresta e agroecologia. A proximidade com Porto Alegre (30 km) facilita parcerias, mas o foco permanece na imersão rural.
A infraestrutura inclui salas de aula, laboratórios práticos, biblioteca especializada e áreas para extensão rural, adaptadas ao método de alternância. Essa localização reforça o compromisso com a educação contextualizada, onde estudantes aplicam conhecimentos diretamente em cooperativas locais.
O Curso Pioneiro: Tecnólogo em Gestão de Cooperativas
O primeiro curso autorizado é o Bacharelado Tecnólogo em Gestão de Cooperativas, modalidade de graduação curta (2 a 3 anos) focada em habilidades práticas para a economia solidária. Voltado a administradores de cooperativas, associações e empreendimentos sociais – como as 1.800 cooperativas ligadas à reforma agrária no Brasil –, o currículo abrange contabilidade cooperativa, governança coletiva, marketing solidário e sustentabilidade rural.
Exemplos concretos incluem módulos sobre gestão de cozinhas comunitárias e agroindústrias familiares, comuns em assentamentos MST. A formação integra ensino, pesquisa e extensão, produzindo soluções para desafios como acesso a crédito e comercialização justa. Ingresso via Enem ou processos seletivos próprios, priorizando públicos do campo.
Leia o anúncio oficial do MSTA Pedagogia da Alternância: Inovação Adaptada ao Campo
Central no modelo da FJC, a pedagogia da alternância – reconhecida pelo MEC desde 2004 – divide o tempo estudantil em fases: 'estudo' (aulas teóricas e seminários) e 'trabalho' (imersão prática em cooperativas ou assentamentos). Esse ciclo bimestral fomenta a conexão teoria-prática, combatendo o desalinhamento urbano-rural comum em cursos tradicionais.
- Benefícios: Reduz evasão (comum em 25% no primeiro ano da educação superior brasileira), valoriza saberes locais e promove autonomia.
- Passos: Planejamento coletivo, avaliação integrada, devolutiva comunitária.
No IEJC, esse método já formou gerações de lideranças rurais, agora escalado para o superior.

Desafios da Educação Superior Rural no Brasil: Contexto Estatístico
A acesso à educação superior no campo é precário: apenas 16,5% dos moradores rurais do DF têm diploma superior, contra 30% urbanos nacionalmente (Censo 2022, projeções 2026). No Brasil, matrículas em cursos rurais representam menos de 5% do total (9,8 milhões), com evasão de 49% devido a distâncias e custos.
O Pronera, criado em 1998, formou 100 mil via parcerias, mas críticas apontam reservas de vagas sem Enem como exclusivistas – embora legais para públicos específicos. A FJC complementa, como instituição privada comunitária.Portal MEC
Perspectivas de Stakeholders: Celebração e Debates
Miguel Stédile, coordenador do IEJC, celebra: 'Essa faculdade materializa o acúmulo pedagógico do MST em 42 anos'. Educadores rurais veem avanço na diversidade institucional; críticos, como em polêmicas Pronera, questionam financiamento público indireto via reconhecimento.
Equilíbrio: Fortalece pluralismo no ensino superior, mas exige monitoramento de qualidade via avaliações Inep.
Oportunidades de Carreira e Contribuições para o Mercado
Graduados em Gestão de Cooperativas atuarão em 1,8 milhão de cooperados brasileiros, gerenciando R$ 200 bi anuais. Cargos em administração rural demandam perfis híbridos – técnicos e políticos.Veja vagas em administração de higher ed | Oportunidades no Brasil | Empregos universitários
- Riscos: Concorrência com cursos tradicionais.
- Benefícios: Foco em economia solidária, crescente com ESG.
Visão Internacionalista e Perspectivas Futuras
A FJC planeja cursos para internacionais de Gaza, Haiti e Venezuela, promovendo solidariedade. Futuro: Expansão para agronomia rural, pós-graduação. Com credenciamento, acessa Prouni/Fies, ampliando inclusão.Dicas de carreira em higher ed
Essa iniciativa posiciona o Brasil como referência em educação contextualizada, beneficiando avaliações de professores e buscas por empregos no setor.
