A Fundação da ABC: Os Primeiros Passos da Ciência Organizada no Brasil
A Academia Brasileira de Ciências (ABC), fundada em 3 de maio de 1916 no Rio de Janeiro, surgiu como a Sociedade Brasileira de Ciências, iniciativa de 27 cientistas pioneiros, liderados pelo físico Henrique Charles Morize. Essa data marca o nascimento da primeira instituição dedicada exclusivamente à promoção da pesquisa científica no país, em um contexto em que o Brasil buscava afirmar sua identidade nacional através do conhecimento. Inicialmente dividida em três seções – Ciências Matemáticas, Físico-Químicas e Biológicas –, a ABC rapidamente se consolidou como referência, alterando seu nome em 1921 para refletir seu caráter acadêmico mais amplo.
Morize, primeiro presidente, liderou a diretoria provisória e foi reeleito por três mandatos até 1926. Sob sua gestão, a instituição lançou os Anais da Academia Brasileira de Ciências, publicação contínua desde 1929 que se tornou um dos principais veículos de difusão científica no Brasil. Outros marcos iniciais incluem a criação da Rádio Sociedade, a primeira emissora radiofônica do país, e a expedição a Sobral em 1919 para testar a Teoria da Relatividade de Einstein, confirmando a deflexão da luz estelar – feito que atraiu a atenção internacional e levou Albert Einstein a se tornar membro correspondente em 1925. Marie Curie, primeira mulher membro em 1926, simbolizou a abertura para colaborações globais.
Esses anos iniciais estabeleceram a ABC como ponte entre a ciência acadêmica e a sociedade, influenciando o desenvolvimento de universidades como a USP (1934) e a UFRJ (1937), cujos fundadores eram ligados à academia.
Contribuições Históricas para o Desenvolvimento Científico Nacional
Ao longo de seu primeiro século, a ABC foi instrumental na formação do sistema nacional de ciência. Na era Vargas, apesar das supressões do Estado Novo (1937-1945), contribuiu para o CNPq (1951) e Capes, pilares da pós-graduação brasileira. Membros como Álvaro Alberto da Mota e Silva, presidente da ABC e do CNPq, pavimentaram o caminho para investimentos em pesquisa.
Nos anos 1960-1970, com apoio da FINEP, expandiu programas nacionais e internacionais. Hoje, com cerca de 1.000 membros titulares distribuídos em 10 áreas (de Matemática a Ciências Sociais), a ABC assessora políticas públicas, publica estudos estratégicos e promove diálogos com universidades federais, responsáveis por 90% da produção científica brasileira. Relatórios como "Um Olhar sobre o Ensino Superior no Brasil" propõem modernizações para aumentar profissionais qualificados, impactando diretamente instituições como USP, Unicamp e UFRJ.
- Publicação dos Anais: Mais de 95 volumes, indexados internacionalmente.
- Vice-presidências regionais desde 2009: Fortalecem laços com universidades no Norte, Nordeste e Sul.
- Convênios internacionais: Filiada ao International Science Council, com membros como Nobelistas Claude Cohen-Tannoudji.
A ABC também defende financiamento para pesquisa em universidades, alertando que cortes orçamentários ameaçam a sobrevivência de federais.
A ABC como Símbolo de Resistência durante a Ditadura Militar
Entre 1964 e 1985, a ditadura militar perseguiu 471 cientistas identificados no projeto "Ciência na Ditadura" (MAST/ABC), com prisões, torturas, exílios e cassações. Eventos como o Massacre de Manguinhos (1970), com 10 cientistas da Fiocruz demitidos, ilustram o impacto. Apesar disso, a ABC, sob presidentes como Aristides Pacheco Leão (1967-1981), manteve atividades, publicando e defendendo a autonomia científica.
A instituição marcou os 61 anos do golpe em 2025 com eventos junto à SBPC, refletindo a "cultura de golpes" e caminhos para superação. Seu papel foi crucial para preservar o conhecimento em tempos de censura, contribuindo para a redemocratização e a Constituição de 1988, que consagrou a ciência como dever do Estado.
Hoje, o Manifesto dos 110 Anos reafirma: "Defender a ciência é defender a democracia", ligando resistência histórica a desafios atuais como negacionismo.
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Lideranças que Moldaram o Destino da ABC e da Ciência Brasileira
De Morize a Helena Nader (2022-, primeira mulher presidente após 106 anos), a ABC teve 18 líderes. Destaques incluem Carlos Chagas Filho (1965-1967), que obteve US$1 milhão em bônus do Tesouro; Aristides Pacheco Leão, que navegou a ditadura; e Jacob Palis (2007-2016), que internacionalizou a entidade. Nader lidera defesa contra cortes, com webinários sobre ensino superior.
| Período | Presidente | Contribuição Principal |
|---|---|---|
| 1916-1926 | Henrique Morize | Fundação e expedição Sobral |
| 1951-1965 | Arthur Alexandre Moses | Anais e sede permanente |
| 1967-1981 | Aristides Pacheco Leão | Resistência na ditadura |
| 2022- | Helena Nader | Manifestos e GT Ensino Superior |
Essas lideranças, majoritariamente de universidades públicas, elevaram o impacto da ABC na educação superior.
As Celebrações dos 110 Anos: Seminários, Manifesto e Centro de Memória
Em 2026, a ABC iniciou comemorações com o seminário "ABC 110 Anos: Legado e Futuro" em 28 de abril, no Rio, com palestras de Ildeu Moreira, Antonio Nardi e Francilene Garcia. Lançado o Centro de Memória José Murilo de Carvalho, virtual com 90.000 itens digitalizados (parceria MAST/Faperj), acessível para pesquisadores de universidades.
Série de seminários regionais prossegue até 2027, promovendo reflexão sobre legado e desafios. O Manifesto, lido por Nader, clama por investimentos estáveis em CT&I, destacando universidades como 90% da produção científica nacional.
Impacto Direto na Educação Superior: Políticas e Programas
A ABC influencia universidades via Grupo de Trabalho de Ensino Superior, produzindo relatórios como "Um Olhar sobre o Ensino Superior no Brasil" (2024/2025), propondo faculdades federais focadas em ensino e centros para setores estratégicos. Nota conjunta com SBPC alerta cortes orçamentários ameaçam federais, que formam 90% pós-graduados e produzem ciência.
- Webinários mensais desde 2024 sobre diversificação do superior.
- Defesa de recomposição orçamentária R$1,36 bi para federais (2025).
- Ações afirmativas: Estudos sobre cotas transformando universidades.
Membros ABC, eleitos por excelência, são professores de USP, Unicamp, UFRJ, elevando padrões acadêmicos.
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Desafios Atuais e Perspectivas Futuras
Apesar de avanços, desafios persistem: baixa taxa de 25-34 anos com superior (20%), dispêndio por aluno baixo. ABC advoga por investimentos, combatendo negacionismo pós-pandemia. Com vice-presidências regionais, foca inclusão Norte/Nordeste.
Futuro: Fortalecer sistema CT&I, novas gerações via afiliados jovens, parcerias internacionais. Como na ditadura, ABC resiste, garantindo ciência como soberania.
A ABC e o Papel das Universidades no Futuro da Ciência Brasileira
Universidades federais, com ABC membros, geram 90% pesquisa. Programas como Capes/CNPq, influenciados por ABC, expandiram pós-graduação de 200 para 600 programas. Horizonte: Modernização, com foco inclusão e inovação, para Brasil soberano.
Para acadêmicos, ABC oferece visibilidade; para estudantes, inspiração em pioneiros resistentes.
