A pesquisa conduzida no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) traz luz sobre um aspecto fascinante da fauna brasileira: a biologia reprodutiva da jiboia arco-íris do Cerrado, cientificamente conhecida como Epicrates crassus. Essa espécie endêmica do bioma Cerrado, um dos mais ameaçados do país, teve seu ciclo reprodutivo descrito de forma detalhada pela primeira vez em um estudo de mestrado defendido em fevereiro de 2026 por Rafael Kenji Anzai, sob orientação da bióloga Selma Maria Almeida Santos, do Instituto Butantan. O trabalho não só delineia o ciclo sazonal da reprodução, mas também levanta a intrigante hipótese de intersexualidade em machos da espécie, um fenômeno raro documentado em serpentes.
O Cerrado, segundo bioma mais biodiverso do Brasil, abriga E. crassus em habitats abertos como campos limpos e cerrados stricto sensu. Com hábitos noturnos e terrícolas, essas serpentes constritoras se alimentam de pequenos mamíferos, aves e lagartos, atingindo até 1,5 metro de comprimento. Apesar de sua importância ecológica como predadoras de topo, dados sobre sua reprodução eram escassos, limitados a observações macroscópicas. Esse vácuo de conhecimento motivou Anzai a mergulhar na anatomia microscópica, utilizando quase 130 espécimes de coleções zoológicas em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Metodologia Inovadora no Estudo USP
A abordagem integrativa do estudo combinou dissecações macroscópicas e análises histológicas dos tratos urogenitais, permitindo uma visão precisa das fases reprodutivas. Amostras de testículos, ductos deferentes, rins, ovários e ovidutos foram processadas para exame microscópico, revelando estruturas internas invisíveis a olho nu. Medições de comprimento rostro-cloacal (SVL, na sigla em inglês para snout-vent length) e dimensões cranianas quantificaram o dimorfismo sexual.
Os animais, coletados em áreas de Cerrado, representam uma amostra representativa da variação populacional. Histologia revelou picos de espermatogênese nos testículos masculinos e vitelogênese nos ovários femininos, enquanto histoquímica confirmou a composição de estruturas anômalas em machos. Essa rigorosidade metodológica, típica de teses de alto nível na USP, garante resultados robustos para futuras pesquisas em herpetologia.

Dimorfismo Sexual e Maturidade Reprodutiva
Contrariando expectativas para espécies com combates rituais entre machos – onde os machos costumam ser maiores –, as fêmeas de E. crassus exibem SVL maior que os machos. Cabeças proporcionalmente mais largas e longas nas fêmeas facilitam a ingestão de presas maiores, impulsionando maior fecundidade. A maturidade sexual ocorre precocemente, aos cerca de 1 metro de SVL, inferior às 3 metros de outras boidas como a sucuri.
- Fêmeas: Maior SVL associado a ninhadas maiores, influenciado por melhor acesso a alimento.
- Machos: Cabeças menores, mas hemipênis funcionais para copula.
Essa inversão dimórfica destaca adaptações ao Cerrado, onde recursos sazonais favorecem fêmeas maiores para reprodução eficiente.
O Ciclo Reprodutivo Sazonal Desvendado
O ciclo é sazonal, com pico gonadal no outono (março-maio), semi-síncrono (atividade quase simultânea entre indivíduos) e descontínuo (intervalos de quiescência). Nos machos, espermatogênese máxima no outono contrasta com quiescência testicular; esperma armazena-se nos ductos deferentes o ano todo, e o segmento sexual renal (SSR) ativa-se de outono a inverno.
Para fêmeas, vitelogênese estendida precede pico uterino no outono; gravidez concentra-se outubro-dezembro, partos novembro-fevereiro. Ausência de armazenamento espermático sugere copula sazonal. Essa sincronia populacional otimiza encontros, alinhada a combates rituais masculinos observados no campo.
A dissertação completa detalha fases histológicas, essencial para modelar dinâmicas populacionais.
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Hipótese de Intersexualidade: Um Caso Pioneiro
O achado mais surpreendente é a presença de tecido vestigial mülleriano em vários machos – uma estrutura homóloga ao oviduto imaturo das fêmeas, delimitada e não tubular completa. Gonades testiculares normais e hemipênis intactos indicam funcionalidade reprodutiva preservada. Sem correlação com tamanho, maturidade ou estação, sugere desvio na sinalização AMH (hormônio antimülleriano), análogo à Síndrome de Persistência dos Ductos Müllerianos (PMDS) em mamíferos.
Primeiro relato detalhado em serpentes e Boidae, levanta questões sobre prevalência e impactos evolutivos. Anzai nota: “Falamos que é vestigial porque era uma coisinha delimitada”. Mais estudos genéticos e hormonais são necessários para confirmar intersexualidade plena.

Implicações Comportamentais e Ecológicas
A sazonalidade explica combates rituais outonais, impulsionados por testosterona elevada. Fêmeas maiores maximizam ninhadas, crucial em bioma fragmentado. Intersexualidade pode afetar fitness, mas sem prejuízo aparente à gametogênese. Entender hormônios e comportamento via ciclo reprodutivo pavimenta pesquisas em endocrinologia comparada.
Contribuições para Conservação no Cerrado
O Cerrado perdeu 50% de cobertura, ameaçando endêmicos como E. crassus. Conhecimento reprodutivo subsidia planos de manejo, estimando taxas populacionais e vulnerabilidades sazonais. Santos enfatiza: programas de conservação demandam dados básicos. Estudo USP exemplifica como ciência acadêmica impulsiona preservação, integrando coleções zoológicas.
Reportagem do Jornal USP aprofunda contexto conservacionista.
Contexto na Família Boidae e Serpentes Neotropicais
Padrão conservador em Boidae neotropicais: ciclos sazonais outonais. Comparado a Boa constrictor (ciclo desconhecido, caçada ilegal), destaca urgência de estudos similares. Intersexualidade rara em répteis, mas paralelos em peixes e anfíbios sugerem respostas ambientais.
USP e Instituto Butantan: Excelência em Herpetologia Brasileira
O IB-USP e Butantan lideram herpetologia, com infraestrutura para histologia e coleções vastas. Anzai planeja doutorado, ilustrando pipeline acadêmico. Pesquisas assim geram publicações, fellowships e carreiras em pesquisa, docência e conservação.
Para aspirantes, oportunidades em vagas de pesquisa em biologia abundam em universidades brasileiras.
Perspectivas Futuras e Chamadas para Ação
Próximos passos: genética do vestígio mülleriano, monitoramento hormonal sazonal, estudos de campo em Cerrado remanescente. Colaborações USP-Butantan expandem. Acadêmicos, estudantes e policymakers devem priorizar herpetologia para biodiversidade. Participe de projetos via plataformas como oportunidades no Brasil.
