Descoberta Inovadora da UNESP no Combate aos Microplásticos
O Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-UNESP), campus de São José dos Campos, acaba de publicar um estudo pioneiro que destaca o potencial da Moringa oleifera, planta comum no Brasil conhecida como acácia-branca ou moringa, para remover microplásticos da água potável. Publicado na revista ACS Omega, o trabalho demonstra que o extrato salino das sementes dessa espécie asiática naturalizada em solos tropicais tropicais atua como coagulante natural com eficiência comparável ao sulfato de alumínio, o coagulante químico padrão em estações de tratamento. Essa avanço surge em um momento crítico, quando a contaminação por microplásticos em rios, lagos e oceanos brasileiros ganha destaque em pesquisas acadêmicas nacionais.
No Brasil, onde sete em cada dez praias apresentam fragmentos plásticos, segundo levantamentos recentes, soluções sustentáveis como essa ganham relevância. A pesquisa, apoiada pela FAPESP, abre portas para tratamentos mais ecológicos, especialmente em regiões com baixa turbidez da água, como o Vale do Paraíba, onde o campus da UNESP está localizado.
O Desafio dos Microplásticos na Água Brasileira
Microplásticos, partículas plásticas menores que 5 milímetros originadas da degradação de resíduos maiores ou de produtos como cosméticos e fibras sintéticas, infiltram-se em ecossistemas aquáticos globais. No Brasil, o país descarta cerca de 3,4 milhões de toneladas de plástico por ano, com um terço potencialmente alcançando o litoral. Rios como o Paraíba do Sul, que abastece São José dos Campos, já mostram presença desses contaminantes, capazes de adsorver poluentes tóxicos e entrar na cadeia alimentar humana via peixes e frutos do mar.
Estudos de universidades como UFMG e UFG revelam concentrações elevadas em lagos como o Paranoá e praias do Nordeste. Os riscos à saúde incluem mutagenicidade e carcinogenicidade, especialmente de polivinilcloreto (PVC), o foco do experimento da UNESP. Tratamentos convencionais usam coagulantes químicos, mas geram lodo tóxico e resíduos de alumínio, motivando buscas por alternativas naturais nas instituições de ensino superior brasileiras.
Moringa Oleifera: A Planta Milagrosa Adaptada ao Brasil
A Moringa oleifera, originária da Índia, é cultivada em todo o território brasileiro, especialmente no Nordeste e Sudeste, por suas folhas nutritivas ricas em vitaminas e proteínas. Tradicionalmente usada na culinária e medicina popular, suas sementes são conhecidas por propriedades coagulantes desde os anos 1990 em pesquisas globais. No contexto acadêmico brasileiro, grupos da UNESP exploram seu extrato salino – preparado simplesmente dissolvendo sementes moídas em água salgada – como substituto biodegradável.
Diferente de coagulantes sintéticos, a moringa não deixa resíduos tóxicos, sendo ideal para comunidades rurais. Universidades como a UFPA e Unicamp já investigam aplicações semelhantes em tratamento de esgoto e purificação de água de chuvas, integrando-a a projetos de extensão universitária.
Metodologia do Estudo: Ciência Rigorosa no ICT-UNESP
Os pesquisadores contaminaram água de torneira sintética com 15 mg/L de microplásticos de PVC envelhecidos por radiação ultravioleta, simulando degradação natural, mais 10 mg/L de ácido húmico para turbidez realista. Testes em jar test replicaram processos de filtração direta (coagulação-floculação-filtração) e em linha (coagulação-filtração), usando filtros de areia.
Doses ótimas: 30 mg/L de extrato de moringa ou 9 mg/L de sulfato de alumínio a pH 6. Variaram pH de 5 a 8. Análise por microscopia eletrônica de varredura (MEV) contou partículas, enquanto turbidez serviu como proxy indireto (correlação R²=0,99). Tamanhos de flocos foram medidos por câmera de alta velocidade. O artigo completo detalha esses protocolos.
Resultados: Eficiência Superior em Condições Amplas de pH
Ambos coagulantes removeram mais de 98% dos microplásticos (D50 residual <6 μm), sem diferença significativa entre filtração direta e em linha – eliminando a necessidade de floculação, simplificando e barateando o processo. A moringa destacou-se em pH 5-8, superando o alumínio acima de pH 7, onde este forma espécies hidroxiladas ineficazes.
- Remoção de turbidez: 99,4% (moringa) vs 98,6% (alumínio)
- Cor verdadeira: 92-93%
- Índice de filtrabilidade Ives: 0,00275 (moringa), melhor que alumínio
A moringa aumentou carbono orgânico dissolvido (DOC) em até 2,5 vezes devido a orgânicos residuais, mas reduziu absorbância UV em 88%, removendo matéria orgânica aromática prejudicial.
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Vantagens Ambientais e Econômicas para o Brasil
Como alternativa natural, a moringa reduz impactos de coagulantes químicos, que acumulam alumínio em sedimentos e solos. Custa menos para pequenas escalas, acessível a propriedades rurais sem infraestrutura pesada. No Brasil, com 40 mil comunidades ribeirinhas dependentes de rios poluídos, isso alinha-se a políticas do Novo PAC para saneamento.
Universidades como USP e UFSCar complementam com pesquisas em biocoagulantes, formando rede nacional de inovação em engenharia sanitária.
O Time por Trás da Inovação: Excelência Acadêmica na UNESP
Coordenado pelo prof. Adriano Gonçalves dos Reis (ICT-UNESP e FEB-UNESP), o projeto FAPESP "Filtração direta e em linha para remoção de microplásticos" envolveu Gabrielle S. Batista (mestre PPGECA-FEB) e colaboradores como L.G.R. Godoy (estudo anterior). O ICT-UNESP, polo de engenharia aeroespacial e ambiental, integra pesquisa aplicada a demandas locais, como qualidade da água do Paraíba do Sul. A FAPESP detalha o impacto FAPESP.
Contexto da Pesquisa em Universidades Brasileiras
A UNESP lidera em engenharia ambiental, com campi como Bauru focados em saneamento. Paralelamente, UFMG estuda riscos de microplásticos em solos, enquanto Fiocruz investiga efeitos na saúde humana (sangue, pulmões, placenta). Iniciativas como o ProAmb da Capes financiam pós-graduações nessas áreas, preparando profissionais para desafios climáticos e poluição.
Em 2026, com ENEM e vestibulares priorizando sustentabilidade, esses estudos inspiram currículos de Engenharia Ambiental em federais e estaduais.
Aplicações Práticas: De Laboratório a Comunidades Reais
Testes atuais usam água real do Paraíba do Sul, confirmando viabilidade. Para municípios pequenos, estações compactas com moringa cortam custos operacionais em 20-30%. Projetos de extensão da UNESP podem capacitar agentes comunitários, integrando pesquisa universitária à realidade local.
Desafios e Próximos Passos na Pesquisa UNESP
Desafio principal: remoção de DOC residual da moringa, que eleva custos downstream. Soluções envolvem purificação de sementes ou combinação com adsorventes. Futuro: escalas piloto em ETEs municipais e testes com outros plásticos (PE, PP). Parcerias com Sabesp e prefeituras aceleram transferência tecnológica.
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Contribuições das Universidades para a Sustentabilidade Hídrica
Instituições como UNESP, USP e UFPR impulsionam ODS 6 (água potável) e 14 (vida na água). Bolsas CNPq e FAPESP formam rede de 500 pesquisadores em tratamento avançado, posicionando o Brasil como referência em biocoagulantes tropicais.
Visão Futura: Moringa como Solução Global Brasileira
Essa inovação reforça o papel das universidades públicas brasileiras em soluções verdes acessíveis. Com mudanças climáticas intensificando escassez hídrica, pesquisas como essa pavimentam caminhos para abastecimento seguro, beneficiando milhões e inspirando gerações de engenheiros ambientais.
