Detalhes do Estudo de Hong Kong que Revelou as Lacunas na Comunicação Médica
O estudo, publicado na revista Palliative Medicine, foi liderado pela professora assistente clínica Jacqueline Yuen Kwan-yuk, do Departamento de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong (HKUMed), com Steven Chu Tsun-wai como primeiro autor. A pesquisa analisou 137 consultas reais gravadas em áudio, envolvendo médicos, pacientes com câncer avançado ou doença renal crônica em estágio terminal e seus familiares. Essas consultas ocorreram em cinco hospitais e um centro de cuidados paliativos comunitário em Hong Kong.
A ferramenta ACP-CAT (Advance Care Planning - Communication Assessment Tool), validada pela primeira vez em contextos clínicos reais, foi usada por avaliadores treinados para medir a qualidade da comunicação. Ela avalia aspectos como clareza das explicações médicas, demonstração de empatia, exploração dos valores do paciente e alinhamento das recomendações de tratamento com esses valores. Os resultados mostraram que menos da metade dos médicos ligou explicitamente as sugestões terapêuticas aos desejos declarados pelos pacientes, e em menos de um terço dos casos houve menção a prioridades não médicas, como passar tempo com a família.
"Uma Diretiva Antecipada de Vontade (DAV) é apenas um documento. O que importa mesmo são as conversas que nos ajudam a entender o que é mais importante para os pacientes", destacou Yuen.
A Situação dos Cuidados Paliativos no Brasil: Estatísticas e Desafios Atuais
No Brasil, os cuidados paliativos (CP), definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares enfrentando doenças que ameaçam a vida, ainda enfrentam barreiras significativas. Segundo dados de 2021, o país ocupa a 79ª posição em um ranking global de qualidade de cuidados no fim da vida, elaborado pelo The Journal of Pain and Symptom Management.
- Apenas uma fração dos cerca de 300 mil médicos brasileiros recebe treinamento formal em CP durante a graduação ou residência.
- Estudos indicam que 78% dos pacientes com câncer desconhecem o termo "cuidados paliativos", e 96% não conhecem as Diretivas Antecipadas de Vontade (DAVs).
40 - No Instituto Nacional de Câncer (INCA), pioneiro em CP no país há 36 anos, ainda há sobrecarga em unidades de terapia intensiva para pacientes terminais.
Esses números refletem um cenário onde a distanásia – prolongamento desnecessário da vida por tratamentos fúteis – prevalece sobre a ortotanásia, respeitando o processo natural da morte.
Lacunas no Conhecimento dos Médicos Brasileiros sobre Cuidados no Fim da Vida
Um levantamento com médicos brasileiros revelou falta de treinamento e conhecimento em medicina de fim de vida. Publicado em 2020, o estudo mostrou que a educação é fator crucial, com muitos profissionais sem contato adequado com pacientes em fase terminal durante a formação.
Para suprir essa demanda, universidades como a Unicamp e a USP estão integrando módulos de CP em rotações clínicas, mas desafios emocionais e culturais persistem entre docentes.
O Papel das Universidades Brasileiras no Treinamento de Profissionais para CP
Faculdades de medicina no Brasil precisam priorizar a educação em cuidados paliativos. Programas como o da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), pioneiro em serviços de dor e CP, servem de modelo regional comunitário.
Estudantes relatam baixa autoeficácia em CP, com necessidade de simulações práticas e contato com pacientes reais.
Diretivas Antecipadas de Vontade no Brasil: Legislação e Aplicação Prática
As DAVs, regulamentadas pela Resolução CFM nº 1.995/2012, permitem que pacientes registrarem vontades sobre tratamentos em fim de vida. Cartórios registraram aumento histórico em 2026, surpreendendo famílias.
| Ano | Registros de DAVs | % Respeitados |
|---|---|---|
| 2024 | Baixo | <20% |
| 2026 | Aumento histórico | Em ascensão |
Casos Reais e Perspectivas de Stakeholders no Brasil
No Hospital de Clínicas da Unicamp, o projeto Wishes realiza desejos finais de pacientes oncológicos em CP.
- Pacientes: Querem autonomia, mas temem não serem ouvidos.
- Médicos: Falta de treinamento leva a dilemas éticos.
- Famílias: Conflitos culturais sobre morte.
Para médicos interessados em CP, vagas em universidades oferecem especialização.
Soluções Inovadoras: Ferramentas como ACP-CAT e IA no Treinamento
A ACP-CAT pode ser adaptada ao Brasil para treinar residentes. Integração de IA para simulações empáticas, como sugerido por Yuen, resolve escassez de especialistas.Press release HKU.
Universidades devem incluir CP no currículo obrigatório, com rotação em hospices.
Perspectivas Futuras e Recomendações para o Brasil
Com a PNCP, espera-se expansão para 2026. Recomendações: CV acadêmico para especialistas em CP; parcerias universidade-SUS; campanhas de conscientização.
Profissionais podem buscar avaliações de professores em CP e vagas em higher-ed jobs.
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