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A Trajetória de Recuperação da Produção Científica Brasileira Pós-Pandemia
A produção científica no Brasil passou por um período turbulento nos últimos anos, marcado inicialmente por um boom durante o auge da pandemia de COVID-19, seguido de quedas sucessivas em 2022 e 2023. Esse contexto reflete não apenas os impactos globais da crise sanitária, mas também desafios internos como cortes orçamentários em agências de fomento como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, National Council for Scientific and Technological Development) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel). Universidades públicas, que concentram a maior parte da pesquisa no país, foram as mais afetadas, com redução no número de bolsas de doutorado, pós-doutorado e projetos financiados.
Em 2021, o Brasil atingiu o pico histórico de 82.440 artigos científicos publicados em periódicos indexados, impulsionado principalmente por estudos sobre a COVID-19. No entanto, o retorno gradual às atividades presenciais e o esgotamento do tema pandêmico levaram a uma contração. A queda de aproximadamente 8,2% em 2022 e 7,3% em 2023 resultou em cerca de 70.095 publicações no último desses anos, retornando aos patamares pré-pandemia, mas sem o vigor anterior. Esse declínio foi agravado por uma desaceleração na taxa de crescimento anual composta (TCAC, Compound Annual Growth Rate) de autores, que caiu de mais de 13% ao ano entre 1996 e 2013 para apenas 4,8% após 2013, com quase dois terços dessa perda ocorrendo entre 2014 e 2019 devido a restrições fiscais.
2024: O Ano da Retomada com 73.220 Artigos Publicados
O relatório '2024: Retomada no Crescimento da Produção Científica no Brasil e em Outros 51 Países', parceria entre a Agência Bori e a Elsevier, confirma a reversão da tendência negativa. Em 2024, o Brasil produziu 73.220 artigos científicos associados a instituições nacionais, um aumento de 4,5% em relação a 2023. Esse crescimento posiciona o país em 14º lugar no ranking global de produção científica entre nações com mais de 10 mil publicações anuais, mantendo a posição estável desde 2022.
Das 32 principais instituições brasileiras analisadas, 29 registraram expansão, demonstrando resiliência no sistema de ensino superior. O número de pesquisadores por milhão de habitantes também evoluiu, passando de 205 em 2004 para 932 em 2024, sinalizando um estoque humano qualificado pronto para impulsionar avanços futuros.
Universidades Líderes: USP, Unesp e Unicamp na Vanguarda
As universidades estaduais de São Paulo dominam o cenário da produção científica brasileira. A Universidade de São Paulo (USP) liderou com quase 13 mil artigos em 2024, crescimento de 2,7% ante 2023, consolidando-se como a principal produtora nacional e 61ª no ranking global de instituições pelo Scimago Institutions Rankings. Em seguida, a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) publicou 5.152 artigos (+6,6%), e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) contribuiu com 4.277 (+4,9%), ocupando as posições 722 e 658 globais, respectivamente.
Outras federais como Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também se destacam, formando o núcleo de excelência que sustenta cerca de 80% da pesquisa acadêmica no país. Essas instituições exemplificam como investimentos em infraestrutura e parcerias internacionais podem mitigar impactos de crises.
- USP: ~13.000 artigos, foco em ciências da natureza e médicas
- Unesp: 5.152 artigos, expansão em engenharia
- Unicamp: 4.277 artigos, liderança em inovação tecnológica
Para pesquisadores em busca de oportunidades nessas instituições de ponta, plataformas como vagas em pesquisa e empregos para docentes oferecem acesso a posições em universidades brasileiras.
Tendências por Áreas do Conhecimento: Engenharia e Ciências Naturais Impulsionam o Crescimento
O avanço em 2024 foi puxado por campos estratégicos. As ciências da natureza mantiveram a liderança em volume, seguidas pelas ciências médicas. Engenharia e tecnologias renováveis cresceram 7,1%, refletindo demandas globais por sustentabilidade e inovação. Já as humanidades registraram leve declínio de 1,1%, possivelmente devido à preferência por livros e formatos não indexados em bases como Scopus.
Essa diversificação destaca a maturidade do ecossistema acadêmico brasileiro, com colaborações internacionais crescendo em áreas como biotecnologia e mudanças climáticas, essenciais para o desenvolvimento regional.
Causas da Queda Anterior: Cortes Orçamentários e Impactos Políticos
A contração de 2022-2023 decorre de múltiplos fatores. Cortes sucessivos nos orçamentos do CNPq e CAPES, iniciados em 2015 e intensificados até 2022, reduziram bolsas e projetos em mais de 50%. Durante o governo anterior, ataques retóricos à ciência e priorização de agendas ideológicas desestimularam o setor, levando a um efeito cascata: menos financiamentos, menor retenção de talentos e brain drain para Europa e EUA.
Sabine Righetti, da Bori, enfatiza: 'Cortes de recursos e ataques às instituições durante o governo Bolsonaro e o auge da Covid levaram a menos demanda por recursos'. A pandemia agravou, com laboratórios fechados e foco exclusivo em saúde pública.
Relatório Bori-Elsevier completo (PDF)Respostas Institucionais e Governamentais: Caminho para a Sustentabilidade
A partir de 2023, o governo Lula elevou investimentos em ciência, restaurando parte dos cortes e lançando chamadas como o Novo PAC da Ciência. CAPES e CNPq aumentaram bolsas em 20%, priorizando pós-graduação stricto sensu. Universidades adotaram estratégias como parcerias público-privadas e uso de plataformas como o Portal de Periódicos CAPES para acesso irrestrito a literatura global.
Essas medidas explicam a retomada, com projeções de retorno ao pico de 2021 em 2025, conforme analistas da Elsevier.
Comparações Internacionais: Brasil em 14º, mas com TCAC Moderado
Globalmente, 52 de 54 países cresceram em 2024, exceto Rússia (-6,3%) e Ucrânia (-0,6%). Brasil ocupa 39ª em TCAC 2014-2024 (3,4%), similar a Suíça e Coreia do Sul, mas atrás de emergentes como Indonésia (+20%). Líderes: China, EUA, Índia, Alemanha, Reino Unido.
- Top 5 à frente do Brasil: China, EUA, Reino Unido, Índia, Alemanha (aprox.)
Desafios Persistentes: Financiamento, Qualidade e Brain Drain
Apesar da retomada, desafios estruturais permanecem: subfinanciamento crônico (0,5% do PIB vs. 2% em OCDE), assimetrias regionais (Sudeste concentra 60%) e queda na qualidade média (menos citações por artigo). Êxodo de cérebros continua, com jovens doutores migrando para melhores salários.
Soluções incluem diversificação de funding via FAPs estaduais e atração de talentos via conselhos de carreira em educação superior.
Casos de Sucesso: USP e Unicamp como Modelos
Na USP, programas interdisciplinares em saúde e IA geraram 42,5% dos artigos no top 50% global por impacto. Unicamp destaca-se em inovação, com patentes derivadas de publicações crescendo 15%. Esses cases ilustram como governança autônoma e redes internacionais elevam a produção.
Perspectivas Futuras: Projeções Otimistas para 2025-2030
Com investimentos crescentes, espera-se crescimento de 6-8% anual, recuperando liderança latino-americana. Foco em ODS da ONU e bioeconomia pode posicionar Brasil no top 10 global. Para profissionais, oportunidades abundam em pós-docs e vagas de professor.
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Implicações para Carreiras Acadêmicas e o Ecossistema de Higher Education
A retomada fortalece o setor universitário, mas exige adaptação: ênfase em open access, IA para análise de dados e colaborações. Estudantes de pós-graduação beneficiam-se de maior visibilidade, enquanto docentes acessam mais funding. Plataformas como avalie seu professor e vagas universitárias conectam talentos ao mercado.

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